04/05/2013

Resenha - Sagas 3 – Martelo das Bruxas


Sagas 3 – Martelo das Bruxas
O período da Inquisição, a maior mácula  da Igreja, durou aproximadamente 1000 anos distribuidos em vários períodos, desde 1184 até (pasme!) 1965, tornando a Idade Media uma Era ainda mais trevosa do que jamais fora. A imbecilidade unida à extrema maldade condenou até mesmo crianças inocentes e animais às torturas e mortes execráveis. Se o próprio Cristo estivesse na Terra nesse período, provavelmente também teria ardido em chamas, pois que Ele fora o maior Bruxo que caminhou por este mundo!

Tendo tal período como pano de fundo, a Editora Argonautas trás o terceiro e, até então, último volume da série Sagas.

Assim como os dois primeiros volumes – Espada & Magia e Estranho Oeste – o formato é o pocketbook, com 124 páginas e 5 noveletas contadas pelos autores Ana Cristina Rodrigues, Ana Lúcia Merege, Christopher Kastensmidt, Douglas MCT e Duda Falcão, com capa de Fred Macedo e prefácio de Simone Marques.

Meu Achismo:
Cada História Tem...
De Christopher Kastensmidt

O cenário é o Brasil colonial e a história transcorre na cidade de Olinda, em Pernambuco.

É estranho imaginar que a Santa Inquisição tenha chegado até nossas terras, mas chegou, sendo aqui, como sempre, um dos últimos lugares em que essa hediondez fora abolida, assim como a escravatura e as execuções por enforcamento, sendo que a a última fora apenas um há pouco mais de 100 anos, em Macaé, RJ, onde hoje é uma escola pública.

Como aqui sempre teve tudo que não prestasse, esse período demente de “caça às bruxas” foi retratado no conto de Christopher.



Tudo começou com uma flagelação em praça pública, em que a bruxa Felipa era açoitada e humilhada diante de todos, antes de ser degredada para Luanda, um lugar pior que o inferno e uma situação pior que a morte. Por sorte, Beatriz interferiu, salvando a amiga. Com um ato de indignação fanática teatral, ela lança ao rosto da bruxa um pó venenoso, libertando-a do sofrimento. Ninguém percebeu o ato de Beatriz, a não ser o astuto Pedro Luiz, o Visitador do Santo Ofício de Lisboa e o inquisidor responsável pelas sentenças de bruxaria no Brasil.
A história é narrada em 3ª pessoa, mas contada sob dois pontos de vista diferentes: a de Beatriz e a de Pedro Luiz. Desta forma, não temos na história um “vilão” que, obviamente, seria representado pelo inquisidor, pois que Pedro Luiz age corretamente dentro do conceito que era tomado como bom e certo, por mais absurdo que seja pensar que algo tão abominável como a tortura e assassinato esteja catalogado como sendo o certo a ser feito. Na concepção doentia que provinha do fanatismo da época (e que, absurdamente, em plena segunda década do século 21, ainda existe!), a tortura e a morte daqueles considerados bruxos era uma forma benevolente de libertar-lhes a alma e devolve-los aos braços de Deus.

A narrativa é envolvente e a história é densa, dramática, e o final é a crucificação consciencial que o vencedor terá de enfrentar até o fim da vida. Sem herói nem vilão. Sem bem nem mal. Apenas os fatos e as escolhas.


O Quão Forte Pode Um Gigante Gritar?
Ana Cristina Rodrigues

Neste conto de Ana Cristina, a ficção e a fantasia se misturam na narrativa sobre “Encantados” da Mitologia Celta, híbridos nascidos da união desses seres com humanos, druidas e o fanatismo real da Santa Inquisição que chegara às distantes terras da Irlanda da Idade Média.

Angus, o híbrido filho de Fomori, um gigante banido pelo Conselho Sidhe, volta à terra depois de passar 10 anos no mar, navegando junto aos humanos. Encarregado de entregar uma carta do cartógrafo da expedição em que participava ao irmão dele, na aldeia chamada Lakewood, Angus aproveita a ocasião para rever o pai Encantado.



Enquanto caminham, Fomori vai narrando a devastação de aldeias de fadas e outros seres, através da destruição dos bosques e a “purificação” da área, exterminando toda uma fauna de pequenos sidhes, e como a Igreja também ali se instalara e da selvagem perseguição aos druidas.
Quando Angus foi até a igreja entregar a carta, um desesperado grito místico reverberou em sua mente e ele não conseguiu ignorar o apelo, apesar dos conselhos de seu pai. E essa foi a desgraça para ele e para o fomorian.
O final é muito triste. Fomori sobreviveu, mas para sempre teria aquele grito de dor ecoando em sua mente.

O conto é muito bom e há toda uma gama de pequenas histórias inseridas nele. O único adendo é para uns três vacilos que passaram despercebidos na revisão.

Encruzilhada
Douglas MCT

Esta noveleta mais parece um exercício de braimstorm do que propriamente um conto. Na ânsia de querer ser diferente, inovador, o autor acaba por criar textos non senses. Por acaso, me lembrou de Alice no País das Maravilhas, com seu colho louco falante e lagarta que puxa larica. É para quem realmente gosta.

Mara e Koliada são irmãos, duas pequenas bruxas que começavam a ouvir o chamado de seu destino, através de sonhos premonitórios com o coven ao qual deveriam cumprir três tarefas para que fossem aceitas efetivamente ao círculo das bruxas. Porém, Dola, a governanta perversa e cristã, fazia da vida das duas meninas um inferno.

Noite é um gato falante e o responsável por ditar as tarefas para as pequenas bruxas. Mara se encarregaria da primeira tarefa, que era capturar a Corda da Inquisição, que estava num moinho abandonado. A segunda e terceira tarefas eram mais macabras que isso.



A Justiça Deste Mundo
Ana Lúcia Merege

O ano é de 1645 e a Era das Trevas da Inquisição estava no seu auge. As pessoas eram acusadas de bruxaria pelas situações mais ridículas, como “suspeita de lançar mau-olhado sobre uma criança” ou “verrugas que não sagram ao serem feridas”. Pelas torturas e pelo tempo que essas pessoas eram mantidas presas em porões, elas confessavam qualquer coisa que os inquisidores queriam, pois a fogueira ou decapitação deveria ser uma benevolência diante de tanto horror praticado contra elas.

Benjamin Lamb é um jovem reverendo que tem seu primo-irmão Nicholas acusado de bruxaria e trancafiado com correntes no porão podre, que usavam para aprisionar os suspeitos. Ao encontra-lo, apenas vê um farrapo humano quase enlouquecido. A perversidade é tanta que nem com as suas influências Benjamin consegue libertar o primo. Mas o que parece mesmo ser difícil para ele é ter um parente nessas condições e ainda por cima ter que falar do primo herege à mãe e familiares.

Crendo que ele poderia ser útil de outra forma, Agnes, a noiva de Nicholas, marca um encontro com ele, na noite seguinte, mas nada poderia preparar o jovem reverendo para a revelação que teria: que os seus familiares, que é Agnes e seus pais, mais a sua própria mãe, Mary Lamb, são praticantes da Magia.

Porém, a cegueira do fanatismo não permite que o rapaz enxergue com lucidez a situação à sua frente, repudiando até mesmo a própria mãe. Descontrolado, Benjamin foge em busca de Bailey, reverendo e caçador de bruxas, para delatar a própria família. Tal estupidez o faz presenciar a verdade, em que realmente o Mal reside e, futuramente, o fará amargar um infernal remorso.

Como todos os escritos de Ana Lúcia Merege, este também é dramático, emotivo, que faz o leitor vivenciar a história contada por ela, fazendo com que fiquemos a ruminar mentalmente a história ainda por um bom tempo... sinal de história marcante, que mostra ao que veio. Isso é um dom. E, como dom, é raro!



Missa Negra
Duda Falcão

Nesta noveleta, Duda Falcão não teve o mesmo feliz sucesso, como foi com seus contos anteriores nos dois primeiros volumes de Sagas.

Inspirado nas músicas da Black Sabbath, o conto mostrou o lado obscuro e tétrico da bruxaria, aquele mesmo que por todos os séculos – e ainda hoje – foi disseminado como sendo verdadeiro.




A Magia não tem cor nem moral: ela é neutra. O praticante que dá o tom para obter o resultado que deseja. Mas, aqui, o autor mostrou o pior lado. O lado de pessoas más que manipulam as energias da natureza para propósitos malignos e mesquinhos.
O protagonista sem nome faz a narrativa da história, e começa contando sobre todas as desgraças que ocorreram na pequena cidade para onde se mudou há pouco tempo. Plantações e solos arrasados; nascimentos de aberrações; animais morrendo de fome; as forças da natureza agindo com severidade; pragas de insetos.

Enquanto as desgraças se abatiam sobre todos da pequena cidade, apenas uma família e sua propriedade prosperavam... e isso despertou a desconfiança do restante da população.

Até que, numa noite, o protagonista descobre o mistério que envolvia os vizinhos prósperos e até mesmo a sua esposa! Despertou no meio da madrugada, embriagado pelo estranho chá que a esposa lhe servira antes de deitar, e sentiu-se compelido a sair de casa e adentrar na mata próxima. De tocaia, acabou por presenciar uma infame “missa negra”, em que até o diabo deu o ar de sua graça, ironicamente falando, é claro.

Bem, dentre tantas histórias defendendo a benevolência das bruxas, de vez em quando uma do contra vem quebrar a rotina...



Achismo Final:
O tema “bruxaria” é extenso e complexo, podendo render infindáveis histórias. Em Sagas 3, nenhum conto é semelhante ao outro. Todos são criativos e a diversidade de cenário e enredo quebra uma possível monotonia frequentemente notada em antologias.

2 comentários:

  1. Nunca li litfan brasileira, mas taí! Fiquei com vontade agora. Vou procurar essa saga (a capa, para começar, é lindona).
    Beijos,
    Rita

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    Respostas
    1. Olá, Ritinha!
      Ficou feliz em saber que a resenha despertou o seu interesse :D
      Se tiver a oportunidade de ler o livro, acho que vai curtir, sim!
      Obrigada pela visita e comentário!
      BjoxXx!

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