30/03/2013

Resenha – O Vôo de Icarus, de Estevan Lutz

Meu Achismo:

Lançado em 2010 pelo selo Novos Talentos da Literatura Brasileira, da Editora Novo Século, o livro aborda um futuro não muito distante e bastante verossimel, tão possível de assim o ser, que não sei se classificaria de “ficção” ou “ficção cientifica”. É uma ficção, óbvio, porque a história não é real, mas apenas isso. Um dos pontos abordados é a tecnologia totalmente a serviço do homem, desde o simples acender da lâmpada do abajur, quanto até comprar alimentos, qualquer coisa, pela rede. Oras, já vivemos isso e países como Coréia e Japão isso já é uma rotina.

Icarus é um rapaz de, mais ou menos, 30 anos e que vive e trabalha na cidade vertical chamada Agartha, uma cidade planejada e construída como imensos arranhacéus sobre uma ilha artificial, viciado em jogos de realidade virtual e numa droga alucinógena chamada, apropriadamente, de Nirvana. Icarus é um dos planejadores de jogos em realidade virtual da Holocorp, uma mega empresa de jogos em que só os melhores trabalham.

O livro começa com uma cena de pura fantasia, o que faz ser um ponto muito interessante. Uma batalha entre um herói medieval e uma criatura fantástica, tendo como arma uma espada. Trata-se do “Mito do Guerreiro”, jogo em realidade virtual de que Icarus é viciado. Então, podemos dizer que há uma mistura de fantasia medieval com uma ficção cientifica.

Mas Icarus não vive uma realidade “real”. Quase que 24 horas mergulhado no mundo virtual, seja no trabalho, seja fora dele, o rapaz passa a apresentar sintomas de um colapso orgânico, por mente e corpo estarem em realidades diferentes.

Aceitando os conselhos de sua amiga Ceres, Icarus vai em busca de tratamento com o médico Dr. Voga, que lhe administra um remédio experimental, o Sinaptek, fabricado utilizando a tecnologia nanorobótica. Isso mesmo. O que Icarus ingere é uma cápsula cheia de robozinhos que atuarão diretamente em seus neurônios, ajustando as deficiências químicas assim que elas surgem. Mas era imprescindível de que ele não fizesse nenhum uso de drogas alucinógenas, muito menos do Nirvana, ao qual ele é viciado.

Então, de um dia para o outro, Icarus é uma pessoa completamente renovada, com todos os seus problemas psico-emocionais resolvidos. Os jogos de realidade virtual já não lhe causam mais transtornos orgânicos, mas por outro lado, ele também perde o interesse por isso.

Durante uma festa, um amigo de Icarus o engana e o faz inalar uma certa quantia de Nirvana. Desesperado, ele foge para casa, mas completamente alucinado, ele sequer sabe como chegou até sua cama. E é aí que começa o verdadeiro vôo de Icarus: ele tem a sua primeira projeção de consciência fora do corpo, numa viagem astral que o faz presenciar de perto um suicídio. Isso foi só o inicio para o que se tornaria a ele alucinação e paranóia constantes... ou não.

O livro reúne alta tecnologia, a transcedencia da mente e até conceitos filosóficos hindus, com seus karmas, mayas, sansaras e nirvanas. Apesar de parecer assuntos completamente distintos e imisturáveis entre si, Estevan Lutz conduz a narrativa com muita lógica e clareza.

O final do livro, que faz supor uma continuação, o leitor fica tão confuso quanto o protagonista, por não ter certeza se o que tudo que Icarus vivencia em suas viagens astrais é mesmo real ou apenas uma projeção criada por sua mente sob influencia do Sinaptek e Nirvana. Ou foi tudo uma imaginação forte ou o Sinaptek é mesmo um projeto secreto do governo para criar “espiões astrais” capazes de estar em qualquer lugar para coletar as informações mais secretas. E somente o autor poderia nos informar sobre isso numa continuação, pois que o desfecho ficou em suspensão.

Estevan Lutz teve o devido cuidado de criar um comportamento social que se enquadrasse na proposta da realidade futurista criada por ele. A narrativa em primeira pessoa e os diálogos são concisos e circunspetos. Os nomes, incomuns, estão muito bem enquadrados num mundo totalmente globalizado: Icarus, Ceres, Linus, Roxana. Nomes universais dentro de uma sociedade universal em que não há mais fronteiras territoriais.

Geralmente não gosto de histórias futuristas, por seus autores criarem um futuro pessimista e tétrico, bem ao estilo Blade Runner. Mas Estevan Lutz criou um futuro positivista, em que alguns problemas continuarão, mas haverá sempre a luta pela melhoria na vida de todos. Um futuro em que se viverá no conforto proporcionado pela tecnologia, mas que ainda é perfeitamente possível caminhar por áreas verdes, viajar para lugares onde a natureza ainda domina plenamente ou mesmo viajar pelos mares, como Icaurs fez no final.

E esse futuro eu quero!

E o Sinaptek também!!

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