05/11/2012

Catherine Gaskin - O calvário de Sara Dane

Da miséria e da escravidão à glória e a riqueza...

Sara Dane sabia que não podia chegar a um ponto mais baixo em suavida do que já estava... jogada entre a carga human que enchia os porões infectos do Georgette, a caminho da Nova Gales do Sul. Era o seu castigo por um crime que não tinha cometido.

Foi quando Andrew Maclay a viu pela primeira vez e descobriu por baixo dos farrapos e da sujeira uma mulher linda e vibrante, com uma força de vontade e uma ambição só comparáveis às dele. Tudo eles conquistaram. E naquelas paragens vastas e inóspitas levantaram um império.

Editora Record, 437 páginas.

O QUE ACHEI:

Uma das mais lindas histórias de amor que eu já li, até hoje! E interessante, não é um livro muito conhecido no Brasil, sequer é muito comentado.
Tudo o que achei foram comentários em sites estrangeiros, notadamente ingleses. Parece que essa autora é muito querida lá fora, na Inglaterra, Austrália e EUA.
O que me ficou, de toda a comovente história de uma mulher forte, corajosa e decidida, é que seu coração - apesar de toda sua força moral - ainda era frágil e confuso.
Pintura de Sue Halstenberg
 
Depois de uma vida simples e humilde na Inglaterra, com o pai Sebastian, a menina - acostumada a uma vida de privações, porém feliz, porque amava ternamente seu pai - conheceu um jovem, Richard Barwell, que passou com ela a infância e amenizou seus momentos de solidão e pobreza. Mas um dia, até isso acabou.

Pagando por um crime que ela não cometeu, Sara embarcou em um navio-prisão e foi enviada para a então colônia inglesa de Nova Gales do Sul (atual Austrália), uma terra que era... tipo, o Brasil de 1700 para Portugal. Inóspita, perigosa, selvagem, traiçoeira... Porém, ainda no navio-prisão ela ficou conhecendo o jovem capitão Andrew Maclay, que primeiro ficou penalizado com sua sorte... e despois, apaixonou-se. Claro, naqueles tempos de profundo preconceito, ninguém aceitaria que um jovem de futuro promissor, como ele, fosse casar-se com uma ex-condenada... E aí? É aí que começam os maiores conflitos e a fase de maior emoção no romance.


A ambientação é ótima, como sempre acontece nos romances de Gaskin. A descrição da antiga colônia inglesa, formada com sangue, suor e lágrimas de condenados (como ocorreu aqui no Brasil, nos primórdios da colonização), a vida de Sara e Andrew que sofreram com a hostilidade dos primeiros "empregados" e moradores do vilarejo e a determinação ferrenha dela, de criar um lar e uma família próspera... tudo isso tece os fios de uma trama colorida, cheia de emoções fortes.

A história conta mais ou menos vinte anos da vida de Sara, que é também - além da história de sua vida - a história de seu amor e dos quatro (quatrooo!) homens que a amaram... Bem, essa é uma especie de charada dentro do livro. De início, há todo um envolvimento com Richard, o bonito mas fraco filho da alta sociedade londrina. E o leitor ficará desejando que, mais dia, menos dia, o belo heroi apareça e salve-a do julgamento e da injusta acusação... Mas isso não aconteceu. E não ia acontecer tão cedo...

Sara vai comer o pão que o diabo amassou, nos fétidos porões dos navios-prisões, apanhar de outras prisioneiras, brigar por um pedaço de pão, vestir-se de trapos e sujeira.

Após tanto sofrimento, o leitor ficará sempre com pena dela e do amor infeliz que ela tivera por Richard e que jamais se concretizaria. Mas há Andrew, o belo, generoso, bondoso, Andrew. O sonho de marido de qualquer mulher.


O amor deles é lindo, intenso, brilhante. Eles viverão dias de muito trabalho, enfrentarão revoltas de prisioneiros em suas terras, mas irão construir seu lar ali, na Nova Gales.

Outro personagem que vai se destacar na vida deles (na de Sara, principalmente) é o prisioneiro irlandês Jeremy. Um homem loiro, bonito e forte, e de gênio tempestuoso, me lembrou um pouco o personagem Heathcliff, de 'O Morro dos Ventos Uivantes'... de início, mostrou-se hostil a Sara e tornou-se amigo e companheiro de Andrew, acabando como capataz de suas fazendas. O tempo, porém, irá mostrar qual a verdadeira natureza dos sentimentos de Jeremy... forte, impetuoso, corajoso. E apaixonado.

Também surge Louis de Bourges, um francês moreno, materialista, elegante, embora não muito bonito. Entretanto, na vida de Sara ele vai desempenhar um papel beeem importante - eu, por minha parte, preferia que esse personagem nem tivesse aparecido na história.

E finalmente, após muitos anos, Richard voltará para vê-la, em Nova Gales.

A vida de Sara se passará entre esses quatro homens, e tendo amado dois deles (quais?), acabará ficando dividida, mas jamais trairá a confiança do marido.

O livro é muito triste em certos trechos da vida dela. Dá para derramar algumas lágrimas, quando pensamos na transitoriedade de nossas vidas, e em como o tempo voa, passa tão rápido, levando os males, trazendo felicidades e por fim, levando também essas... e levando tudo, amores, pessoas amadas, terras amadas, lugares amados, deixando apenas saudades. Imensas saudades de tudo o que foi bom e se foi.

A lição que essa história deixa, além dessa que citei acima, é que devemos manter acesa a chama da esperança, por maiores que sejam os tropeços e desgraças na vida.

De uma miserável criatura, coberta de andrajos e faminta, Sara Dane se tornará uma mulher poderosa, dona de um império comercial, amada pelos quatro mais fortes e poderosos homens da região... com exceção de Jeremy, o mais humilde - que foi apenas o capataz das suas terras. Bem, aqui também se nota o orgulho e o preconceito da sociedade inglesa da época: Mesmo tendo sido humilhada de toda forma e sido marcada pelo estigma de "ex-condenada",  Sara jamais se rendeu ao amor de Jeremy. Porque ele também era um ex-condenado, e ela queria, além do dinheiro, o respeito da sociedade que a rodeava.

Enfim, é só lendo o livro que você poderá tirar suas próprias conclusões.

Para mim, a história é perfeita e lembra muito a saga dos primeiros colonizadores do Brasil, com uma única e ENORME diferença: Os colonizadores portugueses não eram preconceituosos e não havia uma diferença marcante de "castas sociais". Até ex-escravos, quando conseguiam carta de alforria, misturavam-se ao povo, como seus iguais. E uma moça branca podia se casar com um ex-escravo sem maiores problemas (se sua família consentisse), além de um ou outro olhar de desprezo, mas não ia além disso: Não havia aquela estigmatização, como no caso das pessoas "de baixo nível" que se casavam com outras, de nível mais alto, que havia na Europa. Quanto orgulho!

Os costumes brasileiros, da mesma forma, eram extremamente menos refinados e mais flexíveis, ao contrário dos ingleses. Tanto que a protagonista mostra, em vários pontos da trama, o quanto é importante para ela "o respeito da sociedade" ou seja, que ela seja tratada como uma dama, uma lady, uma mulher de fino trato, não apenas como uma mulher de negócios...

Mas afinal, foi um ótimo livro. Triste, comovente, realista. E tem uma lindíssima história de amor, não daquelas açucaradas dos ilusórios livros de banca, mas uma história baseada na realidade. Oxalá todos os homens deste mundo fossem como Andrew Maclay e Jeremy Hogan! Fortes, corajosos, determinados, dominados pela paixão...
:)



3 comentários:

  1. Linda a sua resenha,como sou uma romântica incurável...Não quero sofrer com a história de Sara, por isso,ainda prefiro os romances ilusórios dos livros de banca rsrs.

    Beijos

    Luciana

    Apaixonada por Romances

    ResponderExcluir
  2. Oi, Luciana!
    Então, eu também gosto dos de banca, rss. Alguns são agradáveis e tenho que confessar que, mtas vezes, é bem melhor ler esses, rs. Os romances mais densos (como os de Catherine Gaskin) eu leio de vez em quando. Mesmo assim, é lindo, acredite.
    Bjs
    :)

    ResponderExcluir
  3. Lindo livro sobre a Sara Dane. Tenho o livro e o filme; "Sara Dane Uma estória de luta e e Paixão" de 1982.
    Amo filmes de livros.
    filmesdabilioteca1@blogspot.com

    ResponderExcluir

Comente! Os bons comentários são os alimentos dos blogs...