21/10/2012

Anna de Assis, história de um trágico amor



Judith de Assis escreveu a biografia de sua mãe, Anna de Assis. Esse livro serviu de base para a minissérie global, "Desejo".

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Rio de Janeiro, 1909.
Uma tragédia sacode a velha república e agita a provinciana sociedade carioca: Euclides da Cunha tenta matar o amante da sua esposa e, no duelo, é morto a tiros.
Enquanto viveu, Anna de Assis, sua esposa, foi massacrada pela mídia e opinião pública, como responsável pelo desaparecimento de um monumento da literatura brasileira e, mesmo sofrendo ataques e insultos, permaneceu em constrito silêncio até sua morte, em 1951.
Anna de Assis - História de um Trágico Amor, vendeu mais de 36.000 exemplares na década de 90, ficando por muitos meses na lista dos mais vendidos. Inspirou a minisérie Desejo, da Rede Globo, estrelada por Tarcísio Meira, Vera Fischer e Guilherme Fontes, vivendo o trágico triângulo amoroso entre Euclides da Cunha, Anna e Dilermando de Assis.
Rio de Janeiro, 1909, um acontecimento comove a Velha República e agita a sociedade carioca - Euclides da Cunha tenta matar o amante de sua esposa e, no duelo, é morto a tiros. Sete anos mais tarde, o filho de Euclides tenta vingar a morte do pai e também é morto por Dilermando de Assis. Este depoimento de Judith Ribeiro de Assis, filha de Anna de Assis e Dilermando, ao jornalista Jeferson de Andrade, tenta resgatar a imagem da mãe e dá contornos de lucidez à fatalidade.

O QUE ACHEI:
Tanto posso falar da minissérie da Globo, como do livro de Judith de Assis. Depois de ter assistido à belíssima trama de amor, vingança e ódio, eu fiquei tão comovida, que não resisti e procurei por um livro - qualquer livro - que explicasse melhor tudo aquilo. Sabia que era história real, que Saninha (ou melhor, Anna de Assis) tinha, de fato, vivido aquela incrível, forte e inesquecível história de amor, dor e tragédia.
  
 
Anna era casada com o escritor Euclides da Cunha, famoso no Brasil inteiro, na época, por sua inteligência brilhante e seu talento de escritor. A esposa, talvez não relegada ao abandono total, mas se sentindo solitária, não conseguiu viver daquele jeito, apenas consolada pelas visitas ocasionais da família e a presença dos filhos pequenos. O marido lhe fazia falta e ela reclamava disso com frequência para o próprio Euclides. Mas, embora homem justo, honesto e fiel, Euclides punha o trabalho à frente de tudo. A família ele deixava lá, imaginando que tudo estaria bem e que "Saninha", como era chamada sua bela esposa, estava apenas fazendo birra. E suas viagens eram intermináveis, longas, duravam meses. 

 Tarcísio Meira, em impecável desempenho como Euclides da Cunha, e Vera Vischer, como Anna

Em uma dessas viagens, Saninha procurou a companhia de suas amigas solteironas, que viviam em uma pensão. E em certa ocasião, elas lhe apresentaram seu sobrinho, o cadete Dilermando de Assis - na época, quase vinte anos mais novo que ela. Um garotão, bonito, de grandes olhos azuis, cabelos louros, rosto de anjo. Ela se apaixonou e ele também.

Dilermando de Assis, interpretado na minissérie, por...

...Guilherme Fontes

O romance que eles viveram então, passou como um curto e vago sonho bom... Pois logo a dureza da realidade se fez presente. A volta de Euclides quase pôs fim ao romance, mas a teimosia e a paixão ardente de Anna foi maior que tudo. Ela continuou a se encontrar com o rapaz, impondo-se a ele e quase exigindo que ele a tomasse como amante. Alugaram uma casa, onde Anna passou a se dividir, entre o amante e sua família oficial.

Quando ela teve o primeiro filho de Dilermando, Euclides descobriu tudo, ficou enlouquecido. Já estava doente, com tuberculose, mas ainda assim mostrou-se um marido furioso. Não era violento, mas impôs duras condições para que Anna continuasse a viver sob o mesmo teto que ele.

O primeiro bebê tido de Dilermando morreu ao nascer, mas logo vieram outros... e ela os levava à casa do pai, continuando a manter o caso, mesmo temendo a ira do marido.

O fato é que sua bravura e audácia lhe renderam várias tragédias. Dilermando, ao se confrontar com o escritor, já envelhecido e fraco, foi mais rápido e matou-o a tiros. Anna enfrenta a tudo e a todos, e o desprezo de toda a nação e fica ao lado do amante, que é libertado depois disso.

Os filhos de Euclides, testemunhas silenciosas e infelizes da tragédia, passam a a odiar o amante de sua mãe e se tornam, eles também, vítimas do destino... Parecia que Dilermando tinha a tragédia tatuada no coração. Cada pessoa que ele conhecia, que tocava, era destruída... Poucos anos depois, um dos filhos adolescentes de Anna e Euclides também se confronta com Dilermando e também é assassinado por este último.

Mais uma vez, Dilermando sai ileso e é libertado. O filho mais velho de Anna e Euclides vai para a Amazônia, e lá morre, vítima de febre amarela. Restam a ela, agora, só o mais novo e os filhos que teve de Dilermando.

O resto de sua vida, a chegada da velhice e a descoberta de que o marido - com quarenta e poucos anos, estando ela já velha e sem a beleza de antes - a traía com outra mulher mais jovem, tudo isso vai minando a saúde e a paz de Anna. 

 

O final da minissérie, como talvez o final da vida dela, foi totalmente triste e trágico. Aliás desde que conheceu Dilermando, tudo em sua vida foi trágico. 

Ela não se curvou, porém, às misérias ou se entregou à depressão. Continuou uma mulher lutadora, trabalhando sem parar, a ponto de encher as mãos de calos para sustentar seus filhos.

Exemplo de mulher corajosa, embora vítima do destino e da paixão desenfreada por um homem que pouco soube valorizá-la, Anna de Assis a meu ver é o protótipo da mulher contemporânea. Mesmo tendo nascido numa época em que a uma mulher devia ater-se mais à vida familiar, ela soube impor sua própria vontade e lutar contra o mundo para manter aceso o seu ideal de vida, que era o amor aos filhos e ao homem que elegera. E quando este homem a abandonou por causa de outra, ela se manteve firme, cabeça erguida, lutando, trabalhando de sol a sol, passando por momentos de pobreza, mas conseguindo criar com honra e boa educação a todos os seus filhos e filhas.

A série televisiva fez uma homenagem justa a esta mulher sofredora, que no final das contas, resumiu assim seu destino e seus atos: "Eu não errei. Eu amei."
 

REFERÊNCIA BIBLIGRÁFICA:
ASSIS, Judith Ribeiro de (em depoimento a Jeferson de Andrade). Anna de Assis - história de um trágico amor. 7.ed. Rio de Janeiro: AM produções literárias, 1987.
CAVALCANTI, Dirce de Assis. O pai. 5.ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 1998.


6 comentários:

  1. Lamentável engano com ralação à foto que dizes ser de Dilermando de Assis, quando, essa foto, na realidade, é de meu tio materno Dilermando Cândido dos Santos, que hoje, se fosse vivo, teria 92 anos.Irmão de minha mãe, essa foto consta dos guardados dela e muito conhecida de todos da família que naqueles tempos costumava enviar fotos para todos os parentes, quando as tirava..Verifica a fonte onde pesquisaste a foto, porque ela não está correta. Abraço.

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    1. Olá, Vera Luíza Vaz! A foto (que pesquisei em um site de notícias antigas) foi devidamente removida. Em se tratando de fotos de família o melhor é evitar publicações, se não tivermos certeza da procedência. É que pela semelhança com outras fotos de Dilermando, achei que fosse o mesmo, mais jovem.

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  2. O Dilermando matou o filho dela a coisa não foi tão doce assim.

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    1. Não foi uma história "doce", foi uma história "trágica". Por isso mesmo tem o título "Anna de Assis, história de um TRÁGICO amor". Só posso dizer que Anna de Assis foi uma mulher corajosa e extremamente apaixonada por Dilermando... Bem, gosto é gosto. Lógico que EU jamais amaria um homem a tal ponto, pois meu filho está acima de tudo... mas a história deles é surpreendente, lá isso é...

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